Se você tem ouvido falar em Ozempic, Mounjaro e até em um suposto “Mounjaro 2.0”, saiba que isso não é apenas modismo de internet. Esses medicamentos realmente existem, têm base científica sólida e vêm mudando a forma como a medicina trata obesidade e diabetes.
Ozempic: o pioneiro das “canetas”
O Ozempic foi o primeiro a ganhar notoriedade e, por isso, acabou virando quase um sinônimo das chamadas “canetas de emagrecimento”. Seu princípio ativo é a semaglutida, um medicamento desenvolvido para o tratamento do diabetes tipo 2. Ele age imitando um hormônio produzido naturalmente no intestino, responsável por sinalizar ao cérebro que o corpo já se alimentou o suficiente.
Esse mecanismo reduz a fome, aumenta a sensação de saciedade e torna a digestão mais lenta, o que leva a uma ingestão menor de alimentos ao longo do dia. Em estudos clínicos, isso se traduz em perdas de peso entre 10% e 15% do peso corporal, especialmente em pessoas com obesidade. O ponto crítico é que o emagrecimento, que deveria ser um efeito secundário dentro de um tratamento médico, passou a ser o principal motivo do uso, muitas vezes sem indicação clínica.
Mounjaro: Efeito mais potente
O Mounjaro representa um passo além. Seu princípio ativo, a tirzepatida, atua em dois hormônios diferentes ao mesmo tempo, ampliando o controle do apetite e os efeitos sobre o metabolismo da glicose. Essa dupla ação explica por que os resultados de perda de peso são mais expressivos do que os observados com a semaglutida.
Em ensaios clínicos, a tirzepatida levou a reduções de peso que frequentemente ultrapassam 20% do peso corporal. Justamente por ser mais potente, o Mounjaro exige maior cautela. Ele não deve ser entendido como um simples “Ozempic mais forte”, mas como um medicamento com perfil próprio, que demanda acompanhamento médico rigoroso, especialmente quando o uso se afasta das indicações terapêuticas formais.
O “Mounjaro 2.0”
O apelido “Mounjaro 2.0” vem sendo usado para se referir à retatrutida, uma molécula ainda em fase de estudos clínicos. Diferentemente das anteriores, ela atua em três vias hormonais distintas, incluindo mecanismos relacionados não apenas à saciedade, mas também ao aumento do gasto energético do organismo.
Os dados iniciais chamam atenção, com perdas de peso superiores a 24% em alguns estudos. No entanto, é fundamental destacar que a retatrutida ainda não está amplamente aprovada para uso clínico e que seus efeitos a longo prazo continuam sendo avaliados. Trata-se de um avanço científico promissor, mas não de uma solução pronta ou segura para uso indiscriminado.
Onde mora o perigo do uso estético?
Um dos maiores problemas do uso dessas medicações apenas com finalidade estética é o ganho de peso após a interrupção. Como elas atuam reduzindo o apetite e alterando sinais hormonais de fome e saciedade, o emagrecimento não vem acompanhado, necessariamente, de uma reorganização sustentável do comportamento alimentar. Quando o medicamento é suspenso, o organismo tende a recuperar o apetite de forma intensa, o que pode levar não só ao retorno do peso perdido, mas até a um ganho maior do que o inicial. Esse ciclo de emagrecer rapidamente e engordar novamente favorece frustração, sensação de fracasso e pode desencadear ou agravar quadros de ansiedade e relação disfuncional com a comida.
Além disso, o uso sem indicação e acompanhamento médico expõe o organismo a riscos sistêmicos importantes. Há evidências de sobrecarga hepática e renal em contextos de uso inadequado, especialmente quando associados a desidratação, baixa ingestão calórica ou uso prolongado sem monitoramento. Alterações cardiovasculares, como taquicardia e piora de condições cardíacas pré-existentes, também são relatadas em alguns casos. Ou seja, quando o foco deixa de ser saúde e passa a ser apenas estética, o medicamento deixa de ser ferramenta terapêutica e passa a representar um fator adicional de risco físico e emocional.
Ciência não é milagre
Esses medicamentos não são vilões. Pelo contrário: representam um dos maiores avanços no tratamento da obesidade e do diabetes nas últimas décadas. O problema está na lógica do uso sem critério, sem acompanhamento e sem mudança real de hábitos. Emagrecer não é apenas perder números na balança. É preservar saúde metabólica, massa muscular, equilíbrio hormonal e qualidade de vida. Nenhuma caneta substitui acompanhamento médico, alimentação adequada e cuidado contínuo com o corpo.



